E agora… senhoras e senhores, o espectáculo propriamente dito.
Se pensavam que só durante os momentos “não informativos” é que havia gente a tentar manipular-vos, pois pensem de novo, aquilo a que alguns chamam de “espaços de informação”, outros, mais sábios, ou pelo menos espertinhos, chamam “palco do espectáculo”. As luzes da ribalta só se ligam quando a imprensa está no local, e isso dá para os dois lados. Não está cá um jornalista? Então espanquem o prisioneiro de guerra à vontade! Quem é que vai saber? Por outro lado, se estamos rodeados de jornalistas, que melhor altura para puxar de um cobertor, uma chávena de cházinho quente e alguns biscoitinhos de chocolate para oferecer ao pobre inimigo capturado enquanto o tratamos com muito respeito e civismo. Mas primeiro, claro, temos que escolher um que seja arranjadinho e esteja ligeiramente menos piolhoso que os outros, de preferência que tenha um ar triste, mas simpático e resignado. É disso que o povo gosta. E a parte mais bonita disto tudo é que, reparem, ninguém está a realmente a mentir (bem…ok, só ás vezes, mas essas não contam realmente, sim?) está-se só a dar a fatia da “verdade” que mais interessa! Não é fantástico?
Ora há já algum tempo que aqueles que mais precisam do apoio do publico aprenderam a utilizar este palco como bem entendem de modo a cimentarem a sua posição, combaterem a dos seus adversários, ou deflectirem criticas que lhes são lançadas. E isto é feito com toda a honestidade (bem, quase)! A sério! Ignorem as figas que estou a fazer por trás das costas neste momento! Mesmo! Como se diz em terras do Tio Sam (e também da velhinha Britania, mas quem é que se lembra dessa) “It’s Show Time!”
E aqui é que as coisas se complicam. Por vezes um politico, ou figura publica, quer aparecer, outras vezes só quer que algo que se diz sobre ele desapareça (muito provavelmente, algo atirado para o palco por um adversário). No primeiro caso é relativamente simples, só se tem que mostrar aos jornalistas algo ligado a nós que eles queiram mesmo muito ver, no segundo caso é que as coisas se tornam um bocadinho mais complicadas, mas também, a meu ver, muito mais cómicas, nessa situação o que é preciso é mostrar algo que eles prefiram ver do que a nós. Mas não podemos dar a entender que somos nós a mostrar. Calhou de aparecer. Precisamente quando nós precisávamos de desaparecer.
Ajuda se compararmos isto a um truque de ilusionismo. Pensem no Luiz de Matos, quando ele finalmente saca “o seis de espadas”, que uma rapariguinha do publico escolheu, apenas com o conhecimento da sua avozinha, do publico em estudio e toda a audiência da RTP, enquanto está vendado, e dentro de um aquário cheio de piranhas, com uma perna atada atrás das costas. Nessa altura ele vai segura-la bem alto, e á vista de todos para que ninguém duvide dos seu poderes místicos. Isto é o primeiro caso. No entanto, enquanto está a usar a mão direita para colocar a carta no sitio certo e se certificar que a vê bem, vai estar a distrair toda a gente com um discurso hilariante sobre os hábitos de acasalamento das abelhas de Burundi (o que, admita-se é bastante complicado de fazer a partir do interior de um aquário cheio de piranhas, mas hei, assim é a magia), e, isto é importante, a chamar atenção para a sua mão esquerda onde abana um lenço vermelho, um ramo de rosas e uma varinha magica. Tudo isto muito casualmente. Este é o segundo caso. Basta substituírem o público pelos jornalistas ( e a sua audiência), o pobre Luís de Matos por políticos e os acessórios por “acontecimentos”.
Agora uma das partes mais engraçadas é que de preferência se devem usar acontecimentos reais de modo a atrair ou afastar atenções, mas se isso não se passar, bem…também não há problema, só é preciso saber que acontecimentos criar. Ou então esperar por uma altura conveniente para divulgar aquilo que não nos convém, quando todos estão distraídos, antes que alguém o faça, numa altura em que as pessoas possam estar atentas. Uma boa altura é quando anda tudo sensibilizado por uma grande catástrofe. Afinal, quem é que vai ligar a uma, ou uma dúzia, de broncas de um governo quando estamos todos de luto e em choque pela trágica morte de milhares de pessoas. Foi isso mesmo que uma sra. do governo britânico se sugeriu que se fizesse no 11 de Setembro. Infelizmente, para a dama de coração de ferro, isso soube-se e, para bem da imagem do governo, deram-lhe um novo cargo equivalente à sua sensibilidade (i.e.inexistente) e puseram-na na rua.
Se não houver nenhuma catástrofe, bem, existe sempre o sábado, quando ninguém liga nenhum ás noticias.
Mas no caso, lamentável, de nem haver mortos nem feridos, e de o sábado ainda estar longe, bem, o que é importante é saber criar acontecimentos. È altura de se puxar pela cabeça. Vá lá, de certeza que há alguma visita oficial que se pode fazer. Ou uma conferencia de imprensa, sim, os jornalistas costumam gostar disso. Ou então, uma muito boa, a sempre amiga “ooops, eu disse ISTO? Ai meu Deus, espero que ninguém tenha ouvido, ISTO! Ignorem ISTO, que ISTO não é nada. ISTO!”, também conhecida por “fuga de informação”. Porque revelando sem crer propositadamente um grande “segredo”, todos vão andar a investigar o “segredo” e deixar de lado aquilo que até há alguns momentos era essencial.
No fundo na política mediática, o que é preciso é um pouco de talento e uma grande dose de imaginação. Tudo o resto é arte.